O texto começava com uma lágrima, mas não havia sensibilidade o suficiente para uma interpretação acordada. Por isso, depois, uma gota de chuva que escorria lentamente na janela de vidro de um lindo apartamento branco iluminado por uma luminária laranja perdeu-se. Era possível haver um imagem límpida e suave pois a escuridão representa melhor o sono profundo despreocupado.
No fundo de uma banheira o silêncio acolhe mais ainda aquele que descansa inerte. De repente, uma gota intrusa, vinda com um míssil, vibra em águas calmas em uma explosão de desassossego.
Ele acorda em meio a gotas de chuva que molham uma a uma cada parte do seu corpo cansado. Sente o frio em seus ossos, o gelo em seu rosto, e procura abrigo para o perigo de encharcar sua alma. Era como se sentia, perdido em um pedido de descanso. Normalmente, costumava gostar de chuva, mas não quando queria um aconchego quente e brando.
O casarão casava com a escuridão. Não havia quase nada em seu interior, e tudo o que havia parecia entrelaçado em um círculo. Ecos reverberando entre os espelhos intactos e os furos no teto que deixavam escapar o som e respingar a água. Dentre os reflexos ele mirou um grandioso quadro. Cada detalhe da fotografia derretia suavemente. Esse fenômeno só não intrigava-o em deleite, destacava a beleza de uma já linda moça. Transformava-a aos poucos em uma exuberante mulher.
A indecisão o tocou quando percebeu que em algum momento a imagem estaria por toda apagada. Haveria de fazer uma escolha,e escolhas não lhe agradavam, pois parecia sempre escolher
E o mar o lembrou da água que desfazia em beleza hipnotizante a figura feminina. Que aconteça o que deve acontecer, refletiu. Seria triste, porém espetacular assistir ao desmanchar cujo o ápice seria uma explosão de beleza radiante. Não seria o destino dela desaparecer dessa forma bela?
O reflexo de seu pensamento tocou em um espelho e voltou. Mas por que estou aqui então? Sua presença seria parte do destino e haveria ele de interferir para que beleza continuasse a existir?
Não foi o impulso de herói que que o moveu. E sim a curiosidade de um homem que necessitava tocar algo tão esplendido que quanto menos tinha seu auxílio mais belo se tornava. E ao esticar a mão sedenta a tinta secou. E uma voz tão terna quanto o rosto macio soou.
Eu estava esperando por você. Mas não sabia que viria tão depressa. Não era necessários e apressar. Veja só, você está todo molhado e com frio. Poderia ter esperado essa chuva toda passar.
Não sabia.
Não há problema algum. Na verdade, confesso que a sua presença me surpreendeu. Muitos estiveram aqui. E saíram hipnotizados, com medo talvez. Sempre achei que há muitos espelhos, espaço e confusão. Reflexos não são a verdade. Não sei porque eles se assustaram tanto e partiram.
Pois é.
E você, foi corajoso ou curioso.
Não sei.
É claro que sabe. Sempre sabemos o que nos move. Só não gostamos ou não queremos assumir e muito menos pensar sobre isso. Mas talvez é o que nos faça seguir em frente.
Ela observou que no espelho molhado as gotas distorciam o rosto simétrico dele. Ela em um toque angelical, passa a mão para secar o espelho. Com esse gesto, mostra ao até então desatento que, a perfeição não dorme por conta de seus detalhes que respingam um a um sem interrupção. Esses detalhe vivem na ação de enxergar o melhor no outro e e de mostrar ao outro que simplesmente existe. Basta apenas escolher qual gota enxugar. De mãos dadas eles seguem molhados descompassados e às vezes secos pelas circunstâncias.
Uma gosta cítrica de suor salgado arder o olho e despertar em culpa o ser adormecido. Faz lembrar que há sonhos do sono profundo. Ele acorda do sono molhado e em um suspiro assustado e enxuto. Parou de chover.
Sua moça linda mulher exuberante estava ao seu lado. De olhos brilhantes abertos observava-o em seu sono de sonhos afogados. Ela adorava fazer isso. Esperar o sol invadir as frestas e iluminar o que já era iluminado. Gostava de ver brilhar aos poucos cada fio de cabelo louro ao sol dourado. De ver o ruivo de poucos fios do rosto alegrar a feição tranquila. Esperava o momento mais bonito. Ela amava o abrir dos olhos do amado e a mudança de cor esférica coma força da luz natural. O sol pintava de cores perfeitas a manhã mais alegre assim.
Ele suspirou e a abraçou em um alívio de fazê-la mais segura do que nunca em seus braços sente uma última gota. Ele ouve o rosto terno:
Eu sempre sonhei com momentos como esse.
A lágrima sensível no rosto alheio fez sentido.
O texto transformou-se em pintura escrita. A raiva, ternura transcrita em palavras agora congeladas que correm o risco dos respingos e do derreter aflito.
09/08/06
